Que seja leve.
Quero que seja leve... Quero coisas leves.
Quero conforto na cama, no colo, nos cílios e nos passos.
Quero mãos soltas segurando as minhas. E abraços fortes não para me prender, mas para não me deixar sentir vontade de ir.
Quero sorrisos.
Quero olhos brilhando.
Quero mãos frias nas minhas orelhas. Aos meus ouvidos, melodias.
Quero poder ir lá, fazer o que desejo e não ter sobre as costas o medo e/ou obrigação de voltar e desfazer.
Quero roupas leves, cara limpa, pés descalços e cabelos ao vento.
Quero pessoas que não me cobrem nada, não me endureçam, não me desencantem.
Quero encanto. Daqueles que quase parecem paixão. Quero muito encanto.
Quero cafunés ao pé da nuca, sorvete de pavê e girassóis nas janelas.
Quero janelas. Abertas.
Quero
um pôr-de-sol sem data marcada, me esperando todos os dias para
contemplá-lo. E em dias nublados, o cheiro e vento do frio.
Quero,
também, ficar sozinha. Não completamente. Com o vento, o orvalho, o
cheiro do verde, as tulipas e os lírios, os querubins e as borboletas.
No mais, às vezes, sozinha.
Quero pingentes, cordões e pedaços de papéis coloridos.
Quero dicionários abertos para facilitar, quero choros guardados para não se lembrar, quero olhos fechados para sonhar.
Quero simplicidade.
Quero
pessoas que me façam sorrir de olhos fechados, abraçar com o corpo
inteiro e que elogiem, de verdade, minha roupa mais velha, meu cabelo
bagunçado, meus óculos e minha pulseira de bolinhas.
Quero conversas longas, cabelos longos e tranças mal feitas.
Quero ser surpreendida.
Quero que seja diferente. Quero que não seja comum. O que? ... Que seja.
Quero
tardes despretensiosas, com pontos, vírgulas, reticências.
Exclamações!? Interrogações?! Às vezes... desde que soem como e tenham
cheiro de poesia.
Quero poesia. Com ou sem rimas, com ou sem melodias, com ou sem paradoxos, paralelos, e parafusos. Poesia.
Quero correr fazendo barulho, cair desajeitada, receber e fazer cócegas até a barriga doer.
Quero um colo para deitar, colo para dormir, colo para chorar... quero um colo, sem pedir.
Quero ler no banheiro, fugir na varanda e tomar água gelada.
Quero dormir tranquila, lembrar dos sonhos e sentir preguiça de levantar.
Quero viver assim: sem saber onde e sem querer colocar ponto final.
Quero a chance de me ver despertar, (re)nascer, aprender e crescer todos os dias.
Quero viver bem assim... leve.
Porque
cargas pesadas exigem muito da gente. Momentos pesados machucam os
ombros. Pessoas pesadas, mais ainda, afinal elas vão cobrar da gente
quando nossos ombros não suportarem mais. E se não cobrarem, nós mesmos o
faremos.
Pessoas leves. Momentos leves. Sentimentos e desejos leves.
Eu quero...
"No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar..."
[Mario Quintana]